Por: MARIA LUÍSA ABRANTES
Data: 28/03/2026
Em todo o mundo a sociedade civil é escrutinada pelos sistemas políticos , porque é o barômetro dos anseios e das dificuldades das populações autóctones . Em Angola , os colonizadores portugueses muito cedo se aperceberam , que os angolanos como um conjunto de povos com várias línguas e , como todos os outros povos , sentiam e expressavam-se através da cultura .
A primeira fase de aculturação dos angolanos , consistiu em tornar o português a língua comum oficial , o que facilitava aos colonizadores os contactos para tiraram proveito das muitas riquezas do país . Sendo Portugal um país pequeno , com um número reduzido de habitantes , necessitava de trabalhar com os nativos de Angola em todos os sectores para seu benefício . O racismo era uma realidade , esbatido muito envergonhadamente ao longo dos anos , do ponto de vista sócio-económico e nas escolas do Estado que só existiam nas capitais dos Distritos .
– Nessa senda , na década de 1930 , foi autorizada pelo Governo português à sociedade civil angolana , a criação de associações culturais , uma das quais a ANANGOLA . A Associação dos Naturais de Angola, com sede em Luanda , tinha como objecto social a educação e a cultura . O Estado português concedeu fundos suficientes à agremiação , para a construção da sede num bairro nobre da cidade , onde para além das actividades culturais , existia uma escola do ensino elementar ( primária) , um ginásio e um posto médico , assim como construíram várias creches para os angolanos mais carenciados .
– A primeira creche situada no bairro do Café ( à Sagrada Família) , numa residência onde está hoje a sede da DHL , foi ocupada pelo General Faceira ( que tanto se lamenta , quando lhe tiram o rebuçado) , para alugar , logo após a independência . O mesmo destino tiveram outras instalações dessa associação , sem que ninguém levantasse a voz .
– Enquanto o colonizador esperava que essas associações culturais se reduzissem a dar farras e ao ensino básico , as mesmas constituíram um marco da afirmação da identidade não apenas cultural , mas sobretudo , de identidade angolana . A ANANGOLA , teve extrema importância no despertar da consciência dos angolanos , pela luta pela libertação do país do jugo colonial.
– A década de 50 caracterizou-se por ser um período de grande produção literária de escritores angolanos , que viria a ser conhecida como literatura de resistência angolana . A maioria desses escritores eram membros do ANANGOLA e outros eram membros da Liga Nacional Africana. No início dos anos 50 , Viriato da Cruz e Mário Alcântara Monteiro , então à frente do Departamento Cultural , criaram a revista MENSAGEM , entre 1952/53 , iniciando a literatura angolana de protesto e consciencialização .
– Da mesm forma , o governo português autorizou a criação da LIGA NACIONAL AFRICANA, no mesmo período que o ANANGOLA , em 1930 , com o mesmo objetivo. A LNA , teve início com Manuel Inácio Torres Vieira Dias , Cristiano Pinto de Andrade , Gervasio Ferreira Viana e Sebastião José da Costa , tendo com objecto social a actividade cultural , numas instalações provisórias . A 28 de Maio de 1953 , é inaugurada a sua sede definitiva num edifício que resiste à erosão , pela robustez da sua construção . O objecto social foi alargado ao ensino e à formação profissional. Para além do ensino primário diurno , havia o ensino primário noturno para trabalhadores. Havia cursos de corte e costura e de datilografia. O ensino primário dispunha de uma quadra de basketball , uma enfermaria e de um pátio para recreio .
– Logo após a independência , militantes do MPLA ligados a sede , autorizaram que se retalhasse o pátio ( quintal ) da Liga Nacional Africana entre eles , para fazerem a três pancadas , espaços de aluguer para farras e para velórios , a semelhança do que fizeram com o quintal do Club Ferroviário ( do Estado) .
– O mesmo destino teve o LAR DO DESPORTISTA , que para além de estágios , chegou a acolher com dormidas e alimentação , todos os atletas e treinadores participantes nos jogos Luso/Brasileiros . O Lar do Desportista foi simplesmente “ engolido “ pelo Sr. Governador Gonçalves Muanduma , nas vestes de Auxiliar do Poder Executivo , à frente do Departamento Ministerial da Juventude dos Desportos , porque está a estranhar e nunca fez nada de jeito . Hoje em dia , os atletas não tem nenhum local condigno para estagiar .
– O meu pai , foi um dos Presidentes da Liga Nacional Africana , que organizou o primeiro comício apartidário , após o 25 de Abril de 1974 , para acolher e celebrar a libertação de todos os presos políticos. Foi ainda Delegado do ANANGOLA no Lubango, Kwanza Norte e Kwanzas Sul , “ pro-bono “ ( a título gratuito pelo bem ) , acumulando com as suas funções nas Direções Serviços Geográficos e Cadastrais e nos Serviços Hidráulicos .
– O Presidente José Eduardo dos Santos , resistiu às tentativas dos seus camaradas de darem um fim similar ao do Palácio D. Ana Joaquina ( queriam fazer uma parceria com a CATERMAR ) , à Liga Nacional Angolana . O Presidente José Eduardo dos Santos , diga-se o que se disser , era um estudioso da gênese da luta de libertação para a independência de Angola.
– Apresentado-se o Presidente João Lourenço como historiador e querendo promover o turismo , estranhamos a sua falta de sensibilidade , ao pretender impor que uma imóvel de uma instituição autônoma e com personalidade jurídica , passe para a esfera jurídica do Estado por despacho , porque lhe apetece . Em vez desse grande disparate , deveria era conceder mais fundos de apoio aos Centros Recreativos Culturais que o colono deixou e criar novos , com fins sociais bem definidos .
– CADÊ OS ASSESSORES DO PR ?
– Porque é que o Presidente João Lourenço em vez de autorizar a construção de uma estrada para o Mussulo , que vai ser tudo menos para os turistas , (porque será invadidos por parasitas) , não utiliza essa verba para construir mais escolas ?


