Por: MARIA LUÍSA ABRANTES
Data: 09/08/2025
Infelizmente é lugar comum em Angola , fazer recair as culpas dos erros graves de nepotismo , de líderes dos Partidos políticos sobre todos os seus membros . Esse comportamento leva a que por ambição política , muitos dos militantes dos referidos Partidos tendam a isentar de culpa os seus líderes , mesmo quando cometem os piores erros .
Todos sabemos que a responsabilidade é individual , ainda que seja de observar o respeito aos Estatutos dos Partidos , assim como das Empresas . Do meu ponto de vista , há pessoas de bem em todos os Partidos políticos , que são a maioria , como pessoas do mal , que em meu entender são uma minoria .
Quando os líderes dos Partidos políticos são déspotas por sede de poder , não partilham as benesses com a maioria . Logo , não seria justo que quando algo lhes corra mal , provocado pela sua própria maldade exacerbada , tenham que dividir as honrarias que forem concedidas a seus correligionários . Um pai que nos gera , se mata um filho porque lhe desobedeceu e não apenas em legítima defesa , não deixa de ser pai , mas não pode receber o distintivo cívico de PAI DO ANO , porque se tornou assassino .
A 4 de Abril de 2002 , foi assinado um acordo de paz , num acto magnânimo de humildade do Presidente José Eduardo dos Santos . Não foi por reconhecer A ou B , uma vez que nessa altura Savimbi já estava morto e a UNITA não tinha qualquer outra alternativa e todos aplaudimos . Aliás , eu tive família directa e tenho amigos nos três Partidos , mas temos de ser verdadeiros , pois de outra forma não se trata de amizade sincera .
Para os mais jovens , gostaria de recordar , que os Acordos de Alvor foram desrespeitados durante o inicio do Governo de Transição , antes da independência . Por esse facto , os Ministros que tinham sido indicados pelo Governo Português para ocupar os cargos acordados , nunca ocuparam tais funções . Aliás , a guerra civil entre os três Partidos de libertação pós 25 de Abril deveria ser melhor contada , pois afinal , foi o povo do interior de Angola , em especial os que residiam no litoral , quem colocou o MPLA que agora o maltrata no poder .
Com o devido respeito , tenho ouvido e lido com a atenção merecida as entrevistas do meu distinto colega e antigo combatente Dr. Sérgio Raimundo . Pela lei da dialética , ” da discussão nasce a luz” , pelo que permitam-me discordar do Dr. Sérgio Raimundo quando diz e repete , que a reconciliação nacional genuína só se faria com a atribuição da medalhas de heróis nacionais a mais dois assassinos sanguinários , nomeadamente Holden Roberto e Jonas Malheiros Savimbi . Estes dois líderes da UPA/FNLA e da UNITA respectivamente , ordenaram raptos , tortura , violações e a morte de populações civis inteiras . Não se tratou de morte ou rapto de militares , nem se tratou de não comutar a pena de morte num país onde essa lei existisse , o que como defensora dos direitos humanos já é reprovável .
Jonas Savimbi , juntou-se inclusive’ aos racistas sul-africanos , não se importando com a destruição de infraestruturas básicas ( do país que ” queria” defender e eu diria dirigir) , como pontes , barragens hidroelétricas , etc. . Também nunca manifestou qualquer sentimento de arrependimento , com o bombardeamento de cidades com número elevado de civis , como Huambo e Bie’ entre outras .
Já anteriormente , Jonas Savimbi , por sua anuência ( vide vídeo abaixo ) , aceitou sem os seus camaradas terem conhecimento , acordar com o Governo Português comprovadamente , lutar contra os outros dois movimentos de libertação armados , a FNLA e o MPLA de que foi parte , porque tinha pressa de liderar . Se Holden Roberto mandou torturar e matar , Jonas Savimbi , assistia com sadismo a queimar e a enterrar vivos inclusive’ mulheres e crianças. Isso é a todos os títulos inaceitável e imperdoável.
Os discursos políticos de reconciliação , visando ou não objectivos políticos por vezes populistas , não se compadecem com a realidade cruel , com a reconciliação podre entre torturados e seus familiares , com os torturadores , assassinos e algozes . Infelizmente já está a ser feito , com a atribuição generalizada de medalhas de herói nacional a psicopatas compravados da pior espécie , faltando apenas os dois referidos pelo meu ilustre colega , possivelmente por excesso de ” bondade “. Não se trata do médico que deve salvar o paciente que assassinou o seu filho , porque o bem vida está acima de tudo . Conceder uma medalha de herói nacional é um acto político de reconhecimento e de reabilitação . Quem queima e enterra mulheres e crianças vivas , terá direito reabilitação e a perdão ?
Sei que vários potenciais candidatos ao cargo de Presidente da República e seus apoiantes discordarão por populismo e , possivelmente dirão que não se devem fazer comparações entre políticos e realidades , mas eu farei sempre até o meu último dia de vida . A Alemanha foi reunificada e não foi necessário atribuir-se a medalha de herói nacional a Afolf Hitler , o que aliás seria impensável , pois nem a história o absolveu .